
A VINGANÇA
Eu acabara de matar uma pessoa.
Um golpe certeiro – apenas um, no coração.
Ainda limpava o sangue de minha faca na lateral da calça rústica.
Não havia percebido ainda que era hora de fugir.
Mas algo me ardia na nuca. Olhei para trás, mas nada mais vi que uma espessa escuridão.
Ainda assim, um peso palpável agredia o meu pescoço. Eu sabia que era um olhar. Um olhar perfurante como golpe de adaga. Inflamante como ferro em brasa.
O nevoeiro tornou-se mais denso. Mais pegajoso.
Ameacei uns passos; dei alguns outros.
Parei.
Senti que alguma coisa – mão? garras? – comprimia o meu ombro direito.
Do fundo do nevoeiro, da escuridão quase marmórea, cintilaram duas íris amarelas, cruzadas, na vertical, por pupilas negras.
Então a coisa piscou para mim.
Puxou-me o pulso direito.
Algo foi pendurado no meu pulso. Algo que parecia uma corda, mas dotado de cerdas maleáveis. Algo que segurava um peso morto, cuja natureza não tardei a descobrir.
Ouvi os ruídos de cascos se distanciando. Senti que a névoa se dissolvia. Vi que a claridade estonteante do luar retornava a preencher cada um dos silêncios que a noite produzia.
Olhei para coisa atada em meu pulso.
Eram tranças.
Tranças que seguravam uma cabeça de mulher. Uma cabeça decepada. A cabeça da megera - serva de Satã - que eu acabara de matar.
-Beije-me – disseram-me aqueles lábios, que se abriam para mim com seus dentes afiados, antes de se cravarem para sempre em meu pescoço. FIM








